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EDUCAÇÃO QUE TRANSFORMA

Entre a inclusão e a realidade: vivências e permanência de pessoas autistas no ensino superior

Falta de preparo institucional, dificuldades de adaptação e sobrecarga emocional fazem parte da rotina de universitários neurodivergentes.

O número de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no ensino superior brasileiro tem crescido nos últimos anos. Segundo dados do Censo da Educação Superior 2023, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), houve aumento no número de matrículas de estudantes diagnosticados com TEA nas universidades brasileiras, refletindo o avanço dos diagnósticos e das discussões sobre inclusão no ambiente acadêmico.

Apesar disso, a permanência desses estudantes dentro das universidades ainda é marcada por desafios relacionados à adaptação, socialização, saúde mental e falta de suporte institucional.

A inclusão de pessoas com TEA no ambiente educacional é garantida pela Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012), que reconhece pessoas autistas como pessoas com deficiência para todos os efeitos legais. Além disso, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) também determina que instituições de ensino públicas e privadas devem garantir acessibilidade e inclusão no ensino superior.

Mesmo com o avanço da legislação, especialistas apontam que muitas universidades ainda encontram dificuldades para aplicar essas medidas na prática.

Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que estudantes com autismo representam apenas 0,8% das matrículas no ensino superior, cenário que especialistas relacionam às dificuldades de permanência, adaptação e apoio institucional dentro das universidades.

A jornalista Carolina Maria, diagnosticada este ano com TEA nível 1 aos 23 anos, conta que sua trajetória acadêmica foi marcada por instabilidade desde o início. Antes de ingressar no curso de Jornalismo, ela começou a cursar Biologia, mas precisou trancar a graduação diversas vezes por dificuldade de adaptação.

“Na época, eu ainda não tinha o diagnóstico de TEA, então muita coisa parecia apenas falha minha”, relata.

Segundo Carolina, o medo de não conseguir acompanhar o ritmo da faculdade esteve presente desde o começo, principalmente pela dificuldade de concentração e pela pressão social envolvendo apresentações e trabalhos em grupo.

Os desafios da convivência acadêmica

Para estudantes com TEA, situações comuns da rotina universitária podem gerar ansiedade e esgotamento emocional. Trabalhos em grupo, apresentações e a necessidade constante de interação social aparecem entre as maiores dificuldades.

“Tenho dificuldade em confiar no ritmo dos outros e também em me adaptar à dinâmica coletiva. Prefiro trabalhar sozinha, onde consigo organizar meu tempo da forma que funciona melhor pra mim. Em alguns momentos, eu faltava ou chegava atrasada para evitar a situação.”, explica Carolina afirmamdo que apresentações em sala geram um alto nível de ansiedade.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), pessoas autistas apresentam índices mais elevados de ansiedade e depressão quando comparadas à população neurotípica, principalmente em ambientes de alta demanda social e emocional.

A psicóloga Adriana Cristiane Berto explica que estudantes autistas enfrentam dificuldades que vão além do conteúdo acadêmico.

“As dificuldades estão relacionadas à comunicação, organização, interação social, sobrecarga sensorial e demandas sociais implícitas.”

A especialista afirma que ambientes universitários costumam ser extremamente estimulantes, com excesso de barulho, iluminação intensa e muitas informações ao mesmo tempo, fatores que podem dificultar a concentração e aumentar os níveis de ansiedade.

“Muitas vezes, o problema não é o conteúdo em si, mas a dificuldade de conseguir se manter regulado o suficiente para aprender”, explica Adriana.

Quando a inclusão não acontece na prática

Além das dificuldades emocionais e acadêmicas, estudantes neurodivergentes também enfrentam barreiras relacionadas à falta de preparo das instituições de ensino.

“Um professor me chamou de ‘fraca’ na frente da sala. Foi uma situação de humilhação que impactou muito minha experiência acadêmica.”

“Durante toda a minha trajetória eu não tive acesso a nenhum tipo de apoio ou adaptação institucional.”

Carolina, explicando que seu diagnóstico é recente.

Segundo ela, ainda existe falta de preparo das universidades e dos professores para lidar com estudantes neurodivergentes.

“Muitas vezes, comportamentos são interpretados como desinteresse ou falta de esforço, quando na verdade existem questões cognitivas e emocionais envolvidas.”

Segundo o Censo Demográfico 2022, divulgado pelo IBGE, pessoas com deficiência apresentam níveis mais baixos de escolarização e participação no ensino superior, cenário que especialistas relacionam à falta de acessibilidade e suporte educacional ao longo da vida acadêmica.

Para a profissional da área de educação inclusiva Juliana Barica Righini, muitas universidades ainda não estão preparadas para lidar com estudantes neurodivergentes.

“A dificuldade está em conhecer as potencialidades e barreiras que o aluno enfrenta no dia a dia. Essa construção deve ser feita junto com o aluno e sua rede de apoio.”

Segundo ela, a inclusão ainda esbarra em estigmas e na falta de preparo institucional.

“As universidades acabam caindo na crença de não estarem preparadas, sem realmente conhecer o aluno e sua realidade.”

Entre permanência e acolhimento

Durante sua trajetória acadêmica, Carolina viveu episódios que marcaram negativamente sua experiência universitária. Um deles aconteceu quando foi exposta por um professor diante da turma.

Ela conta que a situação foi tão difícil que precisou mudar de turno na faculdade. O mais contraditório, segundo a jornalista, é que fora daquele ambiente ela já possuía uma trajetória consolidada na comunicação, com mais de 500 matérias escritas e dois livros publicados.

Dados do Fórum Econômico Mundial apontam que pessoas neurodivergentes frequentemente enfrentam barreiras relacionadas à inclusão social e profissional por conta da falta de compreensão sobre diferentes formas de aprendizagem e interação.

Mesmo com o avanço das discussões sobre inclusão no ambiente acadêmico, estudantes com TEA ainda enfrentam dificuldades que vão além da sala de aula. Os especialistas e alunos afirmam que a inclusão precisa deixar de existir apenas no discurso e passar a fazer parte da realidade universitária.

A jornada de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no ensino superior é marcada por desafios que vão muito além da grade curricular, envolvendo barreiras de acessibilidade pedagógica, falta de suporte institucional e

dificuldades de integração social. No entanto, o maior obstáculo muitas vezes surge após a conquista do diploma.

Para compreender como esse cenário se estende para fora das universidades, acesse este artigo sobre as

dificuldades de inserção e permanência de pessoas autistas no mercado de trabalho e entenda a necessidade urgente de uma inclusão corporativa real.

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