Inclusão de pessoas com TEA no mercado de trabalho avança, mas ainda enfrenta desafios no Brasil
Mesmo com leis e maior conscientização, falta preparo das empresas ainda limita a permanência desses profissionais
A inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no mercado de trabalho tem avançado nos últimos anos no Brasil, impulsionada por iniciativas de diversidade e maior conscientização. No entanto, desafios estruturais ainda dificultam a inserção e, principalmente, a permanência desses profissionais nas empresas.
De acordo com Bruna Reidi Copa, coordenadora de Recursos Humanos, muitas organizações ainda estão no início dessa jornada. Segundo ela, parte das contratações ocorre mais pelo cumprimento de exigências legais do que por uma cultura genuína de inclusão.
“Acredito que evoluímos bastante nos últimos anos. Hoje o tema está mais presente nas empresas e existe uma preocupação maior com diversidade e inclusão. Porém, ainda vejo que muitas organizações estão no início dessa jornada. Algumas já possuem programas estruturados, enquanto outras ainda contratam mais pelo cumprimento da cota do que por uma visão genuína de inclusão.”
Dados do IBGE apontam que o Brasil tem cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o que representa aproximadamente 1,2% da população. Ainda assim, a taxa de participação dessas pessoas no mercado de trabalho é baixa — estima-se que a maioria dos adultos autistas esteja fora do emprego formal.
A legislação brasileira, por meio da Lei nº 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana, garante direitos às pessoas com TEA, equiparando-as às pessoas com deficiência para todos os efeitos legais. Apesar disso, a efetividade da inclusão ainda encontra barreiras no ambiente corporativo.
Entre os principais desafios estão a falta de preparo das lideranças, dificuldades de comunicação e ausência de adaptações simples no ambiente de trabalho.
“O maior desafio, ainda, é o despreparo das lideranças e das equipes.
Muitas vezes falta conhecimento sobre o espectro,
sobre comunicação e adaptações simples no dia a dia”, explica Bruna.
“Comunicação clara e objetiva, rotina estruturada, ambiente menos sensorialmente carregado, alinhamento de expectativas e capacitação de
lideranças são pontos essenciais.”
Outro ponto crítico é o processo seletivo. Segundo a especialista, os modelos atuais nem sempre avaliam corretamente as competências de candidatos com TEA.
“Na maioria das vezes, os processos precisam de ajustes. Muitos valorizam excessivamente comunicação, improviso e interação social, o que pode não refletir a capacidade técnica do candidato”, afirma. “É importante tornar as etapas mais claras, evitar dinâmicas desnecessárias, informar previamente como será o processo e avaliar mais competências do que apenas o comportamento durante a entrevista.”
Bruna também destaca a diferença entre inclusão por obrigação legal e inclusão como parte da cultura organizacional. Segundo ela, quando a contratação ocorre apenas para cumprir a lei, o processo geralmente se encerra na admissão. Já em empresas com cultura inclusiva, há preocupação com desenvolvimento, acessibilidade e permanência.
Também conversamos com Maria Eduarda, jovem diagnosticada com TEA e atualmente inserida no mercado de trabalho. Ela relata que enfrentou dificuldades desde o início da carreira, principalmente pela falta de preparo das empresas.
“Quando fiz 18 anos, consegui um emprego freelance em uma loja de cookies. Não foi fácil pra mim, por conta da questão do autismo e de outras demandas também. Muitas vezes, quando as pessoas não sabem, acabam não entendendo o que a gente passa e o que a gente precisa para conseguir acompanhar.”
Atualmente empregada, Maria ainda enfrenta desafios no dia a dia e relata dificuldades de adaptação no ambiente de trabalho.
“Eu ainda não consegui fazer nenhuma adaptação significativa. O que estou buscando agora é justamente isso, tentar alguma alternativa que me ajude no dia a dia. Pensei em usar um fone ou abafador de ruído, porque tem muito barulho e isso acaba me atrapalhando. Também estou vendo com a gestão a possibilidade de fazer pequenas pausas, de cinco a dez minutos, para respirar um pouco e depois voltar ao trabalho. Mas, por enquanto, nenhuma dessas coisas consegui implementar com sucesso.”
Apesar dos avanços na conscientização e na legislação, a inclusão de pessoas com TEA no mercado de trabalho brasileiro ainda enfrenta entraves importantes. Mais do que contratar, as empresas precisam investir em informação, adaptação e desenvolvimento contínuo para garantir não apenas o acesso, mas também a permanência e o crescimento desses profissionais. A construção de ambientes verdadeiramente inclusivos passa, sobretudo, pela mudança de cultura organizacional e pelo reconhecimento das potencialidades de cada indivíduo.