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DENÚNCIA EXCLUSIVA

A dúvida do diagnóstico

Relatos de pacientes, dados do CRP-SP e entrevistas com especialistas levantam discussões sobre avaliações neuropsicológicas relacionadas ao TEA.

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A procura do diagnóstico correto 

“Responde o mais rápido possível para eu consegui te dar seu diagnóstico.” Foi nessa mensagem de texto que Júlia, uma estudante de jornalismo de 24 anos, percebeu que havia alguma coisa errada na busca para seu diagnóstico.

A universitária, que faz acompanhamento terapêutico há dez anos por ansiedade, depressão e transtornos alimentares, recebeu do seu psicólogo atual que a acompanha há dois anos a suspeita de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou altas habilidades. Para esclarecer as suspeitas, solicitou que a Júlia realizasse uma avaliação neuropsicológica. 

Modus Operandi: Como Identificar

Júlia seguiu conforme a solicitação e procurou ajuda de um neuropsicólogo que já conhecia e confiava no trabalho. O profissional recomendou um protocolo de seis sessões avaliativas de forma online. A primeira etapa foi a anamnese.

Diagnóstico Expresso
Ausência de Equipe Multi

“A anamnese funciona como uma entrevista semidirecionadas. Existem profissionais que optam por uma abordagem mais livre, baseada no fluxo de conversa com a família, e outros que preferem um roteiro estruturado, focado nos pontos essenciais que realmente precisamos saber, como a rotina do paciente. É um exame crucial, pois é nesse momento da anamnese que começamos a descobrir o quadro.” explica o psicólogo Leonardo Damasceno. 

Depois da primeira sessão, Julia conta que o primeiro contato a deixou desconfiada. “A primeira sessão foi ok, não posso dizer que foi 100%, porque ele falou coisas duvidosas sendo psicólogo, inclusive sobre medicamentos, mas continuei.”

O cronograma previa mais cinco etapas dedicadas à aplicação de testes, que incluíram também questionários para a mãe da estudante, com objetivo de avaliar os níveis de hiperatividades da universitária.

Na segunda sessão, o profissional de saúde não apareceu para o atendimento e remarcou para a semana seguinte, que também não apareceu. Em vez de remarcar, enviou uma mensagem com um link de formulário em que exigia que ela respondesse o mais rápido possível para que ele pudesse emitir a conclusão do laudo. 

A estudante questionou a postura e as etapas puladas, mas o neuropsicólogo respondeu a ela que “Deus sabia do seu profissionalismo e de sua ética.” 

Segundo Júlia, o neuropsicólogo concluiu que ela apresentava sinais de TEA e transtorno borderline, mesmo sem a conclusão de todas as etapas inicialmente previstas para a avaliação.

“Ele descartou TDAH porque, segundo ele, meu raciocínio era muito lento. Também descartou altas habilidades porque no teste eu não atingi o percentual que ele esperava”.

 

A negligência vivenciada por Julia não reflete apenas um caso isolado de pressa no diagnóstico, mas um alerta sobre um fenômeno que afeta a saúde mental no Brasil. 

 

A pressa na emissão de laudos, em seguir protocolos e a má conduta de profissionais também são encontrados no Transtorno do Espectro Autista (TEA).
 

A investigação por trás dos laudos 

Nos últimos anos, o debate sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ganhou destaque no Brasil, acompanhado pelo crescimento no número de diagnósticos e pelas discussões sobre saúde mental e neurodivergência. 

O número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) cresceu significativamente no Brasil nos últimos anos. Dados do Censo Demográfico de 2022 identificaram cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA no país, número que representa aproximadamente 1,2% da população brasileira.

Em comparação com a década de 90, o aumento registrado ao longo das últimas
décadas foi de cerca de 300%.

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Fonte: IBGE

“O TEA é uma condição que afeta o neurodesenvolvimento e muda a forma como a criança percebe o mundo de uma forma social. Pode envolver dificuldades em alguns momentos na fala, questões sensoriais, comunicação, comportamento e outros aspectos”, explica o psicólogo Leonardo Damasceno.

Em meio a esse cenário, investigações passaram a levantar questionamentos sobre a atuação de algumas instituições e sobre a forma como determinados processos diagnósticos vêm sendo conduzidos.

Em São Paulo, a chamada “Operação Descredenciamento”, realizada pela Polícia Civil, investiga clínicas suspeitas de irregularidades envolvendo tratamentos e reembolsos ligados ao atendimento de pessoas autistas. 

Segundo as investigações divulgadas pela imprensa, algumas instituições teriam simulado atendimentos terapêuticos, realizado cobranças indevidas e solicitado reembolsos por sessões supostamente não realizadas.

O caso levantou discussões sobre a necessidade de avaliações diagnósticas realizadas de forma cuidadosa e multidisciplinar, além da fiscalização de clínicas e profissionais da área da saúde mental.

Dados obtidos pela reportagem junto ao Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP), por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram crescimento no número de representações relacionadas à intervenção em TEA. Em 2024, o conselho registrou 252 representações contra psicólogos, sendo cinco relacionadas à intervenção em TEA. Já em 2025, o número passou para 435 representações, das quais 13 estavam ligadas à área.

Apesar do aumento, o CRP-SP informou que não foram identificados processos éticos relacionados especificamente a clínicas multidisciplinares enquanto pessoa jurídica. Segundo o órgão, as representações registradas envolvem profissionais individualmente.

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Dados: Conselho Regional de Psicologia - CRP

Esse tipo de situação também foi acompanhado pela nutricionista Beatriz Souza. Em entrevista à equipe dos Peças do Espectro, a profissional relatou o caso de uma paciente que atendia em uma clínica multidisciplinar (o nome da instituição não foi divulgado por questões de segurança da entrevistada).

A nutricionista conta que durante os atendimentos da criança, percebeu que ela não apresentava nenhuma seletividade alimentar ou qualquer outra característica dentro da nutrição que justificasse o diagnóstico no Transtorno do Espectro Autista (TEA).

“Ela não tinha nenhum quesito dentro da nutrição”, relata Beatriz Souza.

Ao perceber que as terapias nutricionais eram desnecessárias, Beatriz comunicou a família sobre a ausência de sintomas, além de levar o caso para seus supervisores, informando que não haveria como prosseguir com as consultas da criança.

“Eu levei para os responsáveis e para a clínica que ali eu não tinha como prosseguir com o atendimento dela, porque não tinha o que trabalhar com ela”, explica a nutricionista.

Segundo Beatriz, a avaliação nutricional em casos relacionados ao TEA vai muito além da seletividade alimentar.

Clínicas multidisciplinares e a pressa do diagnóstico

As clínicas multidisciplinares são empresas que reúnem diversos especialistas de diversas áreas, como psicólogos, médicos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e nutricionistas trabalhando juntos. 

O objetivo é oferecer um atendimento em conjunto para o paciente não precisar passar por diversos consultórios e repetir sua história várias vezes, os profissionais conversam entre si e criam um tratamento personalizado. 

A equipe dos Peças do Espectro entrou em contato com diferentes clínicas que oferecem avaliação para Transtorno do Espectro Autista (TEA) para entender como esses processos de avaliação acontecem na prática. 

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Prints mostram informações enviadas por clínicas durante contato realizado pela reportagem sobre avaliações neuropsicológicas relacionadas ao TEA.

Aperte play para ouvir a reportagem completa!

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Durante o levantamento, as clínicas compartilharam informações sobre como funcionam as avaliações neuropsicológicas, incluindo etapas do processo, valores e quantidade de sessões. Entre os procedimentos citados estavam entrevistas iniciais, aplicação de testes, observações clínicas e elaboração de laudos.

As respostas também mostraram diferenças entre os atendimentos oferecidos pelas instituições. Enquanto algumas clínicas afirmaram realizar avaliações em até oito etapas, outras relataram processos mais longos, podendo chegar a dez sessões. Os valores cobrados também variam, chegando a quase R$3 mil em alguns casos.

Apesar das diferenças entre os atendimentos apresentados pelas clínicas, especialistas reforçam que avaliações relacionadas ao TEA exigem acompanhamento cuidadoso, tempo e análise individualizada de cada paciente.

“Uma avaliação muito boa vai demorar. Ela não vai ser uma avaliação fechada em uma semana ou duas semanas”, afirma o psicólogo Leonardo Damasceno.

“É bem criterioso esse processo de fechar o diagnóstico, então precisa ser feito realmente várias avaliações, entendendo o contexto da família”, explica o especialista.

“Tem diagnóstico que demora quatro, cinco meses e alguns podem chegar a um ano, porque ainda não bateu os critérios para realmente fechar o TEA”, completa Leonardo.

A busca por respostas 

A demora e a complexidade desse processo também podem gerar impactos emocionais e financeiros para pacientes e familiares. No caso de Júlia, além do desgaste psicológico causado pela experiência, a estudante afirma que precisará refazer toda a avaliação neuropsicológica com outro profissional.

Segundo ela, além do valor já investido no processo interrompido, será necessário desembolsar mais dinheiro para reiniciar as etapas da investigação clínica, o que aumentou a insegurança e a frustração durante a busca por respostas.

“Eu, como já tinha um pouquinho mais de noção por fazer terapia há muito tempo, fico com essa sensação de angústia e impotência, sabe? De que vou ter que fazer tudo de novo por causa de uma falta de profissionalismo dele. Vou ter que gastar dinheiro de novo e ainda ter medo do próximo diagnóstico vir errado também”, relata a estudante.

Para famílias que buscam respostas, o diagnóstico representa não apenas uma conclusão clínica, mas um processo que envolve tempo, confiança e cuidado. Entre consultas, avaliações e incertezas, pacientes seguem tentando encontrar, além de respostas, segurança durante a investigação diagnóstica.

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